amargo regresso
#213 - natal amargo não é o pior filme de pedro almodóvar, mas é um filme menor
olá vocês!
daí que fui ao cinema para assistir ao novo filme de pedro almodóvar e, pela primeira vez, saí da sala com uma sensação estranha: a de não ter gostado muito do que vi. não que natal amargo seja um filme ruim. está longe disso, até porque o pior filme de almodóvar provavelmente ainda seria melhor do que muita coisa que estreia toda semana.
para mim, este homem é um deus do cinema, o único capaz de me fazer ver qualquer coisa que leve o nome dele. ainda assim, senti um certo desgaste em um artista que sempre me pareceu incapaz de repetir a si mesmo sem encontrar uma nova maneira de me surpreender.
em um resumo rápido, sem spoilers, natal amargo acompanha raúl (leonardo sbaraglia), um roteirista atravessando uma crise criativa. incapaz de encontrar uma boa história, ele passa a transformar os dramas, as dores e os segredos das pessoas ao seu redor em matéria-prima para seus roteiros. paralelamente, acompanhamos elsa (bárbara lennie), uma diretora de cinema que tenta elaborar o luto pela morte da mãe enquanto convive com crises de enxaqueca e ataques de pânico.
o motor da narrativa está justamente nesse jogo entre realidade e ficção. conforme raúl escreve, o filme começa a embaralhar as fronteiras entre aquilo que aconteceu e aquilo que está sendo inventado. pessoas reais passam a existir também como personagens, e a ficção vai engolindo a vida aos poucos.
é uma premissa que levanta questões interessantes: até onde um artista pode ir em busca de uma boa história? existe um limite ético para transformar a dor alheia em arte? vale a pena sacrificar relações em nome da ambição profissional? almodóvar parece querer discutir exatamente esse preço da criação artística. a questão é que, para mim, o debate nunca alcança a profundidade que a premissa promete.
a ironia é que justamente o filme em que o diretor parece expurgar uma crise criativa acaba sendo um trabalho tão pouco criativo. a metalinguagem em torno da construção de um roteiro não traz nada que ele próprio já não tivesse explorado com muito mais inventividade em outros momentos da carreira. esse olhar para um cineasta maduro tentando reencontrar o sentido de continuar criando já foi visto em dor e glória (2019), onde essa mesma inquietação encontrava uma forma muito mais emocionante e original.
e, ainda assim, é almodóvar. a direção continua segura, a fotografia é belíssima, as cores seguem compondo aqueles quadros saturados que parecem existir em algum lugar entre o pop art e um catálogo da pantone. o elenco feminino está em estado de graça e, basta a câmera passear pelas paisagens vulcânicas de lanzarote, para lembrar que poucos cineastas sabem transformar um cenário em personagem como ele.
a trilha sonora também faz sua parte. as canções de chavela vargas surgem nos momentos certos, alberto iglesias entrega mais uma de suas partituras elegantes e, por instantes, o filme volta a parecer aquele melodrama sofisticado que só almodóvar sabe fazer.
natal amargo é um filme impecavelmente confeccionado, com tudo no lugar. fotografia, direção de arte, figurino, atuações, música, o acabamento é de primeira linha. mas, desta vez, tive a impressão de que o tecido era um pouco fino demais.
o problema é que os temas vão se acumulando sem realmente se aprofundarem. o luto, os afetos, as relações familiares e até recurso do filme dentro do filme, tão característico da filmografia do diretor, não me comoveu. nenhuma das camadas ganha força suficiente para sustentar o peso da história.
também não há tabus sendo desafiados. para um homem que criou freiras viciadas em heroína e donas de casa capazes de transformar um gaspacho em arma letal, almodóvar parece ter encontrado sua versão mais comportada. as personagens de natal amargo permanecem civilizadas até mesmo nas discussões em que deveriam explodir.
fiquei um tempão me perguntando se esse esvaziamento não era parte da própria proposta. afinal, um filme sobre um artista atravessando uma crise criativa talvez devesse transmitir justamente essa sensação de exaustão. mas, mesmo que essa fosse a intenção, o filme acabou menos interessante do que poderia.
pra não dizer que é tudo ruim, há momentos excelentes. a melhor cena acontece quando mónica ( a ótima aitana sánchez-gijón) perde a paciência com raúl e o acusa de vampirizar a dor de amigos, amantes e familiares para alimentar sua obra, transformando a vida alheia em matéria-prima sem pedir licença.
o mais curioso é que a crítica parece atravessar a tela e alcançar o próprio almodóvar. quando mónica diz que raúl vive do prestígio conquistado e que seu novo trabalho será apenas “um filme menor, mas que seus admiradores vão aceitar mesmo assim”, fica difícil não ouvir ali uma autocrítica do próprio diretor. natal amargo sabe exatamente qual é seu ponto fraco. só não consegue transformá-lo em força dramática.
também há uma cena lindíssima em que amaia interpreta canción de las cosas simples, eternizada por mercedes sosa, e a presença magnética de patrick criado vivendo um stripper fofo e gostoso na mesma medida. pelo menos não dá pra acusar almodóvar de falta de apuro estético no quesito hombres.
aliás.
leonardo sbaraglia.
que homem bonito.
mas acho que finalmente entendi o que me querer menos este filme. natal amargo é um filme sobre uma alguém escrevendo sobre outra pessoa escrevendo. e talvez a nossa profissão só seja emocionante dentro da nossa cabeça. tem gente capaz de passar horas assistindo a vídeos de pedicure desencravando unha. eu provavelmente assistiria um desses antes de acompanhar alguém digitando em um computador.
taí, acho que cansei de filmes sobre processo criativo. eu só quero uma boa história de gente descompassada vivendo emoções à flor da pele. pode até ser sobre uma pedicure desencravando unha. se for o almodóvar dirigindo, ele ainda consegue transformar isso em um clássico.
saí do cinema tentando decidir se este era o pior filme de almodóvar que eu já tinha visto. não é, esse posto continua sendo de amantes passageiros (2013). mas talvez tenha sido o primeiro que me fez aceitar uma verdade simples: ninguém atravessa mais de quarenta anos de carreira, 24 longas, uma porção de curtas e uma filmografia tão influente sem fazer um filme abaixo da média de vez em quando.
natal amargo não é o pior filme de pedro almodóvar, é um filme menor, mas que os admiradores vão aceitar mesmo assim. pedrito ainda vai precisar se esforçar muito para me perder.
ps: se eu fizesse um ranking com todos os longas do almodóvar, do pior para o melhor, vocês iam querer ler? se não quiserem eu vou escrever do mesmo jeito, me deixa ter meus episódios de mania.
ps 2: em 2022, escrevi sobre como eu amo o almodóvar:
júnior bueno é jornalista e escritor. agora empregado (ufa!), mas ainda aceitando freelas e carinho em forma de compra de livro na amazon: a torto e a direito e cinco ou seis coisinhas que aprendi sendo trouxa.



