dia e noite, noite e dia
#219 - um conto infantil que ficou guardado um tempinho, mas que tava na hora dele ver a luz do dia
olá vocês!
vou te contar onde o dia nasceu.
é preciso caminhar até o fim da cidade. onde o chão deixa de ser concreto e vira uma terra marrom, bem marrom. onde o céu se cansa do cinza e vira um azul, bem azul, com nuvens que parecem bichos. onde termina o prédio atrás de prédio e começa a árvore atrás de árvore.
aí você segue andando. até não sentir que não há mais possibilidade, nem remota, de ver cidade nenhuma. nem prédio, nem antena, nem poste, nem fumaça. só o cheiro de mato e silêncio de sítio pequeno, com uma casa pequenininha atrás das montanhas.
foi lá que o dia nasceu.
dia era um menininho alegre e muito curioso, que morava com a mãe. ainda não tinha idade para a escola, mas já queria entender o mundo. e vivia perguntando:
“mãe, por que o sol é assim tão amarelo no fim da tarde?”
“porque ele guarda seus raios mais bonitos para se despedir da gente.”
“e por que o sol vai embora?”
“para a noite poder chegar.”
“e por que existe a noite?”
“para o dia poder descansar. agora dorme, que amanhã tem mais dia,” dizia a mãe, com um beijo.
que menininho curioso, esse meu, pensava a mãe. mas dia pensava era em outra coisa: que devia existir um lugar onde não houvesse noite nenhuma. onde o sol nunca fosse embora e ele pudesse brincar para sempre, sem parar.
a verdade é que dia tinha medo do escuro.
quando a tarde caía, o céu ficava laranja como fruta madura, e o sol se despedia todo bonito. mas a noite vinha chegando, devagar. no começo bem clara, depois, cada vez mais escura. o menino ficava ali, torcendo para que, só uma vez, só umazinha, o sol vencesse a noite. mas nunca acontecia. era como se a noite engolisse o sol com uma boca gigante, e só devolvesse no dia seguinte.
todos os dias, o menininho ia com a mãe para a lavoura. ela trabalhava, ele brincava entre as plantações. até que um dia, dia decidiu: ia seguir o sol. não deixaria a noite engolir ele também. então, quando o sol começou a dar sinais de que ia embora, dia foi andando, pé ante pé, sem que ninguém desse por ele. e quando olhou para trás, já estava longe demais, nem sinal da mãe, nem ideia de como voltar.
dia continuou andando, achando que ia alcançar o sol. só que, quanto mais andava, mais o sol escapava. e a noite vinha chegando, sem pressa, mas sem parar.
até que a floresta se adensou, e tudo ficou mais silencioso. os galhos farfalhavam com o vento. um “hu-hu” ecoou no alto, e uma sombra cruzou o céu. dia olhou para cima e viu dois olhos brilhantes: era uma coruja. ela ficou ali, parada, observando. ele tentou espantar a ave com as mãos, mas ela apenas piscou devagar, como se entendesse tudo. então voou para longe, deixando o menino ainda mais confuso e com medo.
dia começou a correr, tropeçou em uma raiz e caiu de joelhos. enquanto tentava se levantar, ouviu um uivo ao longe. o som atravessou a mata como uma agulha gelada. dia ficou imóvel, segurando o choro. mas o vento aumentou, e o uivo veio de novo. dia não aguentou: correu sem olhar para onde, até encontrar uma pedra e se esconder atrás dela.
ali, encolhido, dia começou a chorar. não era mais só medo do escuro. era fome, saudade, cansaço, tudo misturado. e então, no meio do seu choro, algo começou a brilhar levemente ao seu redor. pequenas luzes piscavam no ar. uma, duas, dez. eram vagalumes voando em volta dele.
dia levantou o rosto, ainda molhado. as luzes flutuavam suaves, como se dançassem. por um segundo, ele achou que talvez a noite tivesse alguma coisa de bonita. mas foi só um segundo. o medo foi voltsndo logo em seguida.
e então, entre as sombras, uma mulher apareceu.
era uma moça alta, pálida, usava roupas escuras e um véu preto que cobria o rosto. dia se assustou. deu um grito e saiu correndo.
“aaaaaahhh!”
mas a mulher falou com voz bem doce:
“não tenha medo.”
dia se virou, ainda tremendo. ela tirou o véu devagar. tinha cabelos longos, bem escuros, sua pele era negra, mas por alguma razão, emanava um brilho prateado, que brilhava na escuridão.
“que-quem é você?”, perguntou o menininho.
“meu nome é noite. e eu vim te ajudar a voltar para casa.”
dia ficou parado um momento. então disparou a correr outra vez, mais rápido ainda. e quando parou, ela estava ali de novo, ao lado dele.
“vai embora, não quero ficar perto de você,” berrou dia. “você é malvada, você leva o sol embora!”
“venha comigo, menininho,”disse a noite. “eu te levo em segurança para casa.”
“não vou, eu posso ir sozinho!”
“e vai conseguir?”
dia não respondeu. estava com fome, com medo, e queria o colo da mãe. bem no fundo, dia sabia que estava perdido.
a noite estendeu a sua mão:
“venha, meu menininho. eu te levo até sua mãe. e, no caminho, possp te contar uma história.”
“que história?”
“se vier comigo, descobre. se não vier, não vai saber.”
dia pensou um pouco. então pegou a mão da noite e disse, tentando parecer valente:
“tá bom. eu vou. mas é só para você não andar sozinha.”
e foram, de mãos dadas.
andaram um pouco em silêncio até que a noite começou a contar:
“no início do mundo, só existia o sol. era sempre dia e as pessoas trabalhavam sem parar. dormiam mal, acordavam mal, e o sol estava lá, no mesmo lugar.
“que legal!” disse dia.
“ah, não era tão bom assim. tudo era tão quente, que se cozinhava peixe e se torrava farinha só com o calor do sol. não dava para contar os dias, ninguém sabia as datas, ninguém fazia aniversário. porque sem dia, não tinha como contar o tempo. as pessoas viviam perdidas.”
“sem aniversário?”
“pois é, imagina só. até que um pajé resolveu mudar isso. ele tinha duas cabaças: uma cheia de amendoim preto, outra de amendoim branco. ele quebrou a de amendoim preto e a noite chegou. todo mundo ficou assustado, achando que ia morrer, imagina. o sol de uma hora para a outra não estava mais lá. o pajé acalmou o seu povo, que logo foi se acostumando. então o pajé dormiu para dar tempo à escuridão e todo mundo dormiu também. foi um sono muito bom e o mundo ficou até mais fresquinho. depois, às cinco da manhã, o pajé quebrou a outra cabaça, e o dia clareou. e assim foi desde então todos os dias até os dias de hoje.”
“essa história é de verdade?” perguntou dia.
“é e não é. é como o povo xingu explica a separação do dia e da noite. mas a verdade é que eu existo desde que o mundo é mundo.”
“mas por que você não deixa o sol brilhar mais um pouco? por que não pode ser dia para sempre?”
a noite sorriu com doçura:
“há um tempo para tudo nesta terra. tempo de ser menino e tempo de crescer. tempo de brincar e tempo de descansar. se tudo for só uma coisa, o mundo sai do compasso.
dia ficou pensativo.
“então você não engole o sol?”
“não. o dia envelhece e precisa ir. do outro lado do mundo, ele nasce de novo. e aí sou eu que vou embora. também gosto muito do sol. mas a gente precisa revezar. não dá para ficar no mesmo lugar ao mesmo tempo.”
ela fez uma pausa. depois disse:
“vê esse brilho no meu rosto? é um presente do sol. agora olha pro céu. vê essas estrelas? são pequenos sóis que você só pode ver quando eu chego.”
dia olhou. o céu era imenso, cravejado de luzinhas. e pela primeira vez, ele achou bonito.
depois de muito caminhar, chegaram à casa. a mãe estava aflita, esperando no portão. quando viu o filho, correu e o abraçou forte.
“meu filho! onde você estava?”
“eu fui tentar salvar o sol, mãe. mas aí conheci a noite, e ela me trouxe de volta.”
a mãe ficou confusa.
“noite? como assim, a noite?”
“a noite, mãe, vou te apresentar!”
mas quando dia se virou, ela já não estava mais lá. olhou em volta: nada.
então olhou pro céu. e lá estava ela, a face prateada, rodeada de estrelas, brilhando de longe. e sorrindo para ele.
júnior bueno é jornalista e escritor. agora empregado (ufa!), mas ainda aceitando freelas e carinho em forma de compra de livro na amazon: a torto e a direito e cinco ou seis coisinhas que aprendi sendo trouxa.


A noite é ruim pra quem foge do dia
Que coisa mais linda esse conto, Júnior 🌙